quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

E o cordeiro vai para o abate...



Tenho urticária à mulher que se diz ou demonstra “desesperada para casar” tanto quanto a homem que fica se fazendo de gostoso, namorando há 100 anos orgulhando-se de estar conseguindo “fugir da forca” pelo maior tempo possível. Fico mais irritada ainda quando estou em uma roda e as pessoas - incluindo os pretendentes a noivos - começam com aquelas brincadeirinhas seguidas de risadas constrangedoras na qual se insinua que a mulher está sendo “enrolada” pelo parceiro que “se agarra com todas as suas forças a derradeiros instantes (dias, meses ou anos) de liberdade”.

Brincadeiras e piadas sobre o tema não faltam colocando o homem na maioria das vezes na condição de cordeiro indo para o abate, enquanto a mulher assiste com um olhar sádico e uma risada digna de bruxa de desenho animado. Aí você olha para o figura e suas saliências etílicas e calos nos dedos que entregam noitadas de Playstation com os parceiros com uma puta duma cara de “pega-ninguém” e se sente o próprio Willy Wonka: “Então, conte-me como é abrir mão de uma vida regada de prazeres sexuais com mulheres de todos os tipos, cores e tamanhos para cair na monotonia da vida conjugal?” #SQN

Sempre me senti mal com essas piadinhas! Primeiro porque desvirtuam um momento que deveria ser belo para 2 seres humanos que resolvem se unir, não por obrigação, mas por não conseguirem mais ficar longe um do outro. Segundo porque não acho legal me colocarem na posição de estar obrigando alguém a ficar comigo no melhor estilo Glen Close em Atração Fatal.

Na prática, percebo que homens apaixonados e que não veem a hora de começarem uma vida ao lado da mulher que amam se sentem na obrigação de perpetuarem essas brincadeiras sem graça enquanto nós mulheres acabamos reforçando esses conceitos muitas vezes de forma inconsciente (ao jogar o buquê para um amontoado de mulheres que mais parecem uma manada de emas descendo a savana ou ao colocar o nome #dazamigas solteiras - e que supostamente estariam esperando ansiosamente a sua vez de amarrarem alguém - na barra do vestido da noiva) e outras tantas de forma consciente ao condenarmos mulheres “dadas” ou ao sentirmos pena de mulheres solteiras (algo que vejo nítido nos olhos das casadas que ficam sentadas enquanto as demais se acotovelam pelo buquê!).

A minha irritação com esse clichê “mulheres querem casar, homens querem ficar solteiros” vem de longa data! Essa semana porém, ao ouvir no carro a enésima música com a mesma temática e após me deparar com a cara de espanto de uma pobre coitada com a qual perdi a paciência durante sua lamentação diária sobre o pedido que não vinha após 4 anos de namoro, comecei a me questionar: 1) será mesmo que se pudessem homens não casariam jamais enquanto todas as mulheres, até mesmo as mais independentes e cheias de si, no fundo só querem alguém para arrastar até o altar? e 2) se isso for verdade, será fisiológico ou será mais um traço do machismo nosso de cada dia? O que estaria por tras dessa máxima?

Nada melhor do que usar a nossa própria experiência e a daqueles que nos rodeiam, bem como um pouquinho de cultura popular, para iniciar esse tipo de análise “antropológica”.

Então vamos lá: 


1) Será mesmo que se pudessem homens não casariam jamais enquanto todas mulheres, até mesmo as mais independentes e cheias de si, no fundo só querem alguém para arrastar até o altar?

Nos casamos após 6 anos e meio de namoro ambos com 25 anos e uns quebrados. Como começamos a namorar muito cedo (aos 19 para facilitar o cálculo do leitor), o casamento foi algo que naquele momento simplesmente fez sentido, pois não aguentávamos mais ter que ficar indo e vindo entre uma casa e outra e não poder ter o nosso cantinho. Não me lembro de ver meu então namorado-noivo-hoje marido triste com a ideia e nem se sentido arrastado a fazer algo contra a sua vontade. Buscando um pouco mais na memória me ocorre que a maioria dos nossos amigos estava bastante feliz e empolgado com a ideia de seus casamentos tanto quanto suas noivas, sendo que a empolgação variava para mais ou para menos dependendo da personalidade de cada um e não do gênero.

O mais interessante é que nada disso impedia que as malditas brincadeiras rolassem! Ou que colegas de trabalho, com os quais eu tinha intimidade próxima de zero, se sentissem suficientemente a vontade para me parabenizar “por ter conseguido laçar o cara após tanto tempo” no meio do corredor ou, pior ainda, no elevador. Como diriam alguns: what a fuc$%$%??!!  ou em bom e velho português: que po$%a é essa???!! 

Me ponho a pensar na quantidade de amigas solteiras que reclamam de não estarem em um relacionamento comparadas ao número de homens que têm a mesma queixa. Há de fato uma diferença gritante.

Em seguida, lembro-me da cara da minha colega quando lhe propus que ela pedisse o namorado em casamento e das milhares de matérias que já li nas Novas e Claudias da vida sobre “como amarrar o gato” além das sessões-cinema regadas a brigadeiro com as amigas assistindo a filmes como “A verdade nua e crua” e “Como perder um homem em 10 dias”.

Parece que sim, uma boa parcela de mulheres busca um compromisso na contramão de uma outra maioria de homens que adorariam passar o resto de suas vidas livres, leves e saltitantes no mercado. E mais: espera-se que o homem tome a atitude de pôr fim à sua liberdade pedindo a mulher que o fez renunciar a tamanho privilégio já que seria ele o “mais prejudicado” com a decisão.

Bem, talvez isso explique a falta de noção dos colegas de trabalho acima mencionados!

2) Se isso é verdade, será fisiológico ou será mais um traço do machismo nosso de cada dia? O que está por tras dessa máxima?

Sendo verdade que a maioria dos homens se sente compelido a enfrentar o casamento como um mal necessário e que boa parte das mulheres está à espreita para dar o bote no primeiro desavisado, de onde será que isso surgiu? Como se construiu esse conceito no inconsciente coletivo que faz com que as pessoas saiam por aí reproduzindo esse padrão com toda a liberdade e tranquilidade do mundo?

Não encontro outra explicação que não o machismo velho de cada dia. Não me parece ser fisiológico posto que na grande maioria das espécies animais o macho tem até que lutar para conseguir a fêmea que lhe parece a melhor opção genética.

Ora, quantos poetas ao longo dos séculos derramaram lágrimas e até sangue por amores não correspondidos? Quantos homens foram para a guerra por grandes paixões? Quantas milhares ou até milhões de páginas não foram escritas sobre o tamanho do amor e do desejo de homens inebriados pelo amor e a paixão? Quando foi, então, que apaixonar-se tornou-se algo feminino ao qual o homem apenas cede em prol da reprodução e perpetuação da espécie, mas necessariamente contra a sua vontade?

Olhando de novo para as minhas próprias experiências e as daqueles que me rodeiam, tendo a concluir que, embora haja de fato esse consenso, ele é muito mais imposto do que sentido. É como dizer que tem que escovar os dentes 6 vezes por dia e nunca esquecer do fio dental: todo mundo fala, todo mundo diz que faz, embora não necessariamente todo mundo pratique.

Assim me parece ser quanto a este tema. Reproduzimos o conceito muitas vezes sem nos darmos conta de suas implicações mesmo no fundo não nos identificando com aquele padrão. Assim, a moça solteira se levanta e esboça um sorriso amarelo ao tentar pegar o buque, ainda que esteja feliz da vida na sua solteirice regada a saídas divertidas e carinhas interessantes que ela conhece semanalmente. Da mesma forma o cara que zoa com os amigos “estar se entregando”, provavelmente esteja louco de feliz por dentro, por ter finalmente encontrado alguém que tolere todos os seus hábitos higiênicos questionáveis.

É claro que este não é um estudo acadêmico (ainda!) e não me aprofundei em pesquisas para chegar a essa conclusão! A ideia é ponderar sobre as possíveis causas para que possamos romper com esse padrão que me parece não corresponder ao que de fato as pessoas sentem e ainda por cima machuca.

Sim, por mais piada e brincadeira que seja magoa você sentir ou achar que seu parceiro, o amor da sua vida, no plano do inconsciente coletivo, preferiria mil vezes estar com seus amigos solteiros na orgia de terça-feira do que com você (porque é claro que no imaginário desse inconsciente coletivo, em que apenas homens solteiros tem uma vida digna de se viver, às terças rola uma orgia e às quartas futebol! Assim se alternando até domingo onde retorna o futebol com pausa na segunda para descanso e ressaca!).   

Mas e o que podemos e devemos fazer como homens e mulheres a esse respeito?

Minha modesta conclusão: questione, não se conforme mas transforme!

Isso mesmo, não aceite as piadinhas com um sorriso amarelo. E se o seu amigo começa a te zoar com isso seja franco e diga que está feliz pelo casamento (ou namoro, união estável, etc.) e porquê. E principalmente não faça isso com os outros! Parabenize, celebre o amor e pare de fingir que sua vida sexual anterior era praticamente a do Jude Law em Alfie. E se por acaso era e você não está tão afim de trocá-la pela monogamia, não troque! Questione isso também! Tem que casar por que? É um próximo passo necessário? Não é isso também uma imposição que traz apenas infelicidade a todos os envolvidos? Converse e discuta sobre isso com a pessoa mais impactada: sua parceira! Será que ela quer casar ou será que ela também não está vivendo uma expectativa social a ela imposta? Será que ela não preferiria que vocês guardassem a grana e fossem rodar o mundo? Enfim, estabeleça esse diálogo com ela!

E se você é mulher, pare de dizer para a sua amiga que ela está sendo enrolada. Ajude-a a tomar a iniciativa e as rédeas de sua própria vida! Quer casar? Peça em casamento! O cara não está afim? Já se perguntou por que? Quais os objetivos de vida que vocês têm como parceiros? Não tem que ser tabu falar sobre isso! São 2 projetos de vida em jogo... Se casar para você é condição sine qua non termine logo e siga sua vida, mas antes recomendo perguntar-se o porquê dessa condição. Se é mesmo por você ou pelo rótulo. Pelo status atribuído pela sociedade ao casamento. Se está feliz e esse homem a satisfaz, que importância tem uma palavra? Idem para os homens. Se você já está em um relacionamento sério, se há respeito mútuo, amor e tesão, qual a razão dessa possível resistência ao rótulo?

Me perturba a quantidade de mitos e tabus em relacionamentos heterossexuais enquanto caminhamos (finalmente!) para discussões serias a respeito dos relacionamentos homossexuais.

3 comentários:

  1. Tirou as palavas da minha boca... bom saber que não sou só eu que vejo esses clichês absurdos e preconceituosos no relacionamento entre homem e mulher. O esquema do bouquet em casamentos sempre achei uma cena de humilhação coletiva das mulheres. Tanto que no meu casamento nao fiz. Temos mesmo que falar mais e mais sobre esses assuntos para mudar essa realidade!!

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  2. Ana Cristina Müller20 de janeiro de 2015 09:28

    Excelente post!! Já fui casada e hoje me sinto ótima divorciada e sozinha. Outro alvo de criticas e piadinhas... A sociedade não sabe conviver com mulheres sozinhas. Mais machismo?? Acredito que sim...

    Ana.

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  3. "A sociedade não sabe conviver com mulheres sozinhas..." Perfeito Ana! Por que será isso? Com certeza machismo... Obrigada!

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